• Rodrigo Saminêz

Washed Out revela intimidade, mas recicla muitas ideias em novo disco

Purple Noon retoma conceitos já trabalhados pelo artista com honestidade, mas não soube inovar da maneira correta.

Foto: Shane McCauley

Intimidade parece ser um tema recorrente na carreira de Ernest Greene, nome por trás de Washed Out, e que atua como compositor, produtor e multi-instrumentista no projeto. Quase dez anos se passaram desde seu primeiro álbum, e Washed Out lançou hoje (8) o seu quarto disco de estúdio, Purple Noon, que após experimentações completamente diferentes nos outros discos do artista, principalmente no denso e psicodélico Mister Mellow (2017), agora Greene volta às origens e retrata a mesma intimidade, que estava estampada, inclusive, na capa do primeiro disco, mas agora de uma perspectiva não só mais madura, mas que já não sente as mesmas coisas.


O primeiro disco de Washed Out, Within and Without (2011) retratou a intimidade de um casal num olhar jovial, em um tom de explorar uma vivência nova, num excelente disco de estreia, sendo um dos pioneiros do chillwave, com seus vocais abafados, delays e muito, muito reverb. E não é à toa que Purple Noon retorna, sutilmente, à sonoridade do primeiro trabalho. Aqui, o que antes era novo e inexplorado, agora já se apresenta mais desgastado, e com marcas do passar do tempo. Greene explora nas letras as fases e características de uma crise de relacionamento, como pessimismo (em Leave You Behind), desespero (Don’t Go), mentiras e, claro, aceitação (Time to Walk Away, Haunt). Os tons de roxo e a ideia do pôr do sol, explorado nos visuais do álbum, se conectam com essa narrativa, ao passo que capturam um movimento que começa e, não necessariamente, termina, mas sofre uma grande transformação



Em termos de produção, que, como de costume, foi assinada por Ernest Greene, Purple Noon apresenta texturas únicas, que por meio de pads e sintetizadores reforçam a intimidade do tema do disco, sem soar minimalista, muito pelo contrário. Os timbres flertam com os anos 80, o que fica muito claro em Face Up, por exemplo, e os vocais de Greene também aparecem com a estética de pad, com várias camadas cantando a melodia de voz principal, dessa vez soando menos experimental e mais sóbria, como na abertura Too Late, junto de uma harmonização belíssima ao fundo. Neste disco, Washed Out também demonstrou uma preocupação em mostrar beats mais contemporâneos, como em Time to Walk Away, com influências que saem do alternativo e flertam com o reggaeton, deixando de lado a bateria acústica na maioria das músicas, enquanto nos discos passados o músico misturava elementos eletrônicos com timbres orgânicos de percussão. O problema é que Greene não desenvolveu o potencial dessas ideias em seu máximo, reciclando viradas de bateria e melodias de voz muito semelhantes em diversas músicas do disco.


Mesmo apresentando uma faceta nova (como feito brilhantemente em Game of Chance), o disco acaba se repetindo e deixa de explorar um enorme potencial. No entanto, Purple Noon ainda é um disco que merece ser apreciado por completo. Talvez o álbum soe um pouco limitado para quem já conhece a obra de Washed Out, mas isso não faz com que ele deixe de ser um disco belo, contemplativo, que mostra as fases não muito belas que um relacionamento leva para amadurecer, e que transmite no som toda a introspecção que o tema pede.



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