• Rodrigo Saminêz

Wado registra, sem dar muita volta, sua nudez emocional e existencial em novo disco

"A Beleza que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa" é um convite à exposição que, em tudo que faz, traz o ouvinte pra mais perto.


Se afastar dos elementos basicos de uma canção, ou, talvez principalmente, dos vícios de composição, aparenta ser um movimento natural da carreria de um músico, mas para Wado, isso é pré-requisito em todo lançamento. Em "A Beleza que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa", Wado se aproxima do ouvinte aos poucos, inserindo em cada música um tema novo sobre a fragilidade humana e existencial, pegando o ouvinte pela mão para falar das verdades que nós muitas vezes identificamos mas preferimos não dar espaço, abrindo mão dos elementos percussivos durante todo o disco, pela primeira vez em sua carreira.


Começando com “Faz Comigo” (com FLORA), Wado parece se despir na frente do ouvinte, pintando um casal intensamente apaixonado, falando abertamente sobre seus desejos um pelo outro, e sobre como um relacionamento não se faz por merecimento, mas sim por um desejo mútuo um pelo outro (“Eu não tenho nada, mas quero você/ Quero você bem louca”). Se despindo logo de início, cada canção que segue é uma peça de roupa que vai ao chão por parte do ouvinte. "A Beleza que Deriva do Mundo" é um disco que convida a nudez emocional e a exploração da fragilidade da estrada (termo que se repete em diversos momentos do álbum) que é a vida. E é um convite irresistível.



Esse convite se transmuta em cada canção. Em “Nina”, por exemplo, Wado se junta com Lucas Santtana para observar com admiração as conquistas femininas e feministas dos últimos anos, e traz um elemento mais solar e otimista para o disco, de quem vê um grupo oprimido caminhando em direção à lugares menos opressores, mesmo que lentamente. Este mesmo sentimento se repete logo na próxima música, “Tempo Vago” (com Kassin e LoreB), uma música em primeira pessoa que também pinta um caminho à ser seguido, porém já um pouco mais existencial e íntimo, um caminho que se encontra dentro de si.


No entanto, Wado também entende que “É longe a estrada e dói de tanto andar” (como dito em “Cacos”) e ilustra o “açoite dos fortes” (“Angola”) como parte da mesma caminhada antes descrita. No fim, o retrato da vida é tão honesto que constrange o ouvinte à nudez e à entrega completa aos versos que Wado compôs e interpretou em parceria com diversos artistas para reagir aos estímulos tanto que o mundo oferece à ele, mas que ele também se propõe a oferecer ao mundo (“Mania minha de achar/ Que tudo que eu cuido é meu/ Mas tudo é do mundo” - “Cuida”). "A Beleza que Deriva do Mundo, mas a Ele Escapa" é um disco colaborativo não só em essência e produção, mas também é um disco que se completa na experiência e na reação do ouvinte.



A proposta de não utilização de elementos percussivos serve justamente pra causar essa aproximação entre o ouvinte, a canção e quem a performa. Wado faz (e sempre fez) da reinvenção um elemento narrativo extremamente poderoso para quem analisa sua discografia e carreira, mas aqui até um ouvinte de primeira viagem pode ter uma reação de surpresa, não necessariamente com a ausência da percussão, até porque esta não se faz necessária em “A Beleza que Deriva do Mundo”, mérito das composições (muitas feitas em colaboração com outros artistas), da produção, assinada pelo próprio Wado, e pela mixagem de Jair Donato, que faz os poucos elementos que compõem as canções do disco soarem gigantes e contrastarem perfeitamente com os silêncios que também são peça chave para o álbum.


Wado faz um retrato do mundo, independente de pandemia (porém com problemas que foram amplificados por ela), com canções frágeis em temática, mas não em verdade, personalidade e impacto. "A Beleza que Deriva do Mundo, Mas a Ele Escapa" é uma obra sensível e com alto potencial catártico e lírico, além de ser mais um registro que Wado faz de suas inquietudes num período tão peculiar, mas que dessa vez veio numa roupagem mais direta, nua e crua, justamente por abordar a exposição da sua própria fragilidade.



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