• Rodrigo Saminêz

Explorando os contrastes, Tagua Tagua mostra que é "Inteiro Metade"

Primeiro disco do músico é um convite à um olhar mais realista às dualidades e contradições, tanto em som quanto em letra.

Foto: Guillermo Calvin

As inquietudes da transformação ganharam um olhar mais sincero e direto em “Inteiro Metade”. Felipe Pueri, o nome por trás do Tagua Tagua, comentou à imprensa que seu primeiro disco “funciona como “a caminhada da transformação, da aceitação dessa mudança dentro de nós”, e é justamente esse trajeto que o disco retrata. Em cada canção são registrados uma série de sentimentos e inquietações, que nos visuais são representados pela enorme variedade de cores, e no som, numa gama enorme de timbres que bebem de diversas fontes, mas com um ponto em comum muito forte, que nada mais é do que a identidade pulsante tanto de Tagua Tagua, quanto do disco, que se encontram na transformação constante.



"Inteiro Metade" sabe bem como manusear o pop para trazer uma identidade que dosa bem o acessível com o experimento, flertando abertamente com outros gêneros musicais. A faixa título, por exemplo, assim como “2016”, parecem interpretar beats do R&B e do soul num arranjo para bateria acústica, e também apresentam camadas de voz mais agudas, em falsete, lembrando alguns clássicos do rock psicodélicos de dentro de fora do Brasil. E claro, o último single do disco, “Só Pra Ver”, traz o refrão mais chiclete da carreira do Tagua Tagua, cantando sobre procurar novos caminhos, mas sembre esbarrar nas histórias com outra pessoa, e se encaixa logo no comecinho do disco, na segunda faixa, e dita muito do que o álbum vai construir ao longo das suas próximas faixas, sendo a música que vai voltar pros seus ouvidos diversas vezes após a primeira vez com o álbum. Tudo isso faz de "Inteiro Metade" um disco que nunca se repete, apesar de conseguir manter uma identidade sólida e eficaz da primeira à última faixa, se transformando constantemente. Até porque, parece ser essa a única direção possível para o trabalho do Tagua Tagua.


Além de saber medir bem as proporções de pop e alternativo, o disco também experimenta no melhor estilo Radiohead, com texturas que ao mesmo tempo apontam pro passado (como o granulado de vinil que está em todo o disco), e também pro futuro. "4AM", terceiro single do álbum, é um bom exemplo dessa experimentação. Apesar de seguir uma estrutura consideravelmente simples, os timbres são todos guiados por uma linha de bateria que beira o math rock, pela precisão e inspiração em beats eletrônicos, criando um contraste com as melodias lentas da canção. Esse experimento de elementos em melodias lentas e percussões mais eufóricas parece permear diversas músicas no disco, em passagens como em “Bolha”, que bebe muito do soul, influência que, inclusive, aparece em diversos momentos do álbum, ora mais tímida, ora mais explícita, até mesmo em faixas mais voltadas pro eletrônico, como “Até Cair”. No fim das contas, a produção e a escolha de timbres seguem a mesma ideia embrionária do disco: as múltiplas facetas e sentimentos que são gerados a partir de um tema só - no caso, o encerramento dos ciclos.



A mixagem de Tiago Abrahão e a produção do disco, feita pelo próprio Felipe, definitivamente merecem uma atenção especial por realçarem o flerte do disco com o passado e o presente. Os timbres soam sóbrios e psicodélicos ao mesmo tempo: bumbos que soam gigantes, pratos cristalinos, guitarras que se misturam com sintetizadores, criando timbres únicos e ousados, baixos que vão fundo, lembrando uma versão mais “atualizada” de “Turn Blue” (2014), do The Black Keys, e os trabalhos do psicodélico brasileiro, desde Serguei, nos anos 80, até Boogarins.


Apesar de sempre seguir um fio condutor muito sólido durante toda a tracklist, "Inteiro Metade" se encontra mesmo é na mudança e na adaptação para falar das contradições que abraçam os fins (inclusive os novos começos que eles proporcionam). Tagua Tagua fez um primeiro disco que se transmuta de acordo com o que cada faixa pede, da mesma forma que a adaptação às novidades e aos acontecimentos chegam de surpresa na vida de qualquer um, movimento sempre cheio de reinvenções e ressignificados. Se "Inteiro Metade" é um disco sobre se ver ao mesmo tempo completo e cheio de lacunas, Felipe Pueri joga mostra o quanto essa identidade e essa necessidade são cotidianas, e resolve observá-las com mais atenção.



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