• Rodrigo Saminêz

Em "Djesse Vol. 3", mergulhamos fundo na cabeça de Jacob Collier

O músico britânico consolidou sua mistura de jazz, soul e R&B, numa sonoridade experimental e pop ao mesmo tempo.


Não é fácil falar sobre "Djesse". O trabalho nada mais é do que o disco quadruplo (!) de Jacob Collier, jazzista de Londres, mas que vale dizer que qualquer título que o músico receber, com certeza não o abraça por completo. Não é fácil falar sobre "Djesse" também por que o projeto ainda não está completo: das quatro partes que compõem o disco, apenas três já vieram à público, sendo a primeira mais intimista, a segunda mais contemplativa, e a terceira parece a mais pessoal, em todos os sentidos que essa palavra pode ter. Em "Djesse Vol. 3", damos um mergulho profundo na cabeça de Jacob Collier experimentamos um rítimo de pensamentos que é, as vezes, mais rápido do que podemos acompanhar num primeiro contato com o disco - o que só lhe confere benefícios.


O fato é: Jacob Collier resolveu fazer uma "festa" para celebrar e reconhecer, talvez principalmente este segundo, seus sentimentos mais genuínos. Por mais que seja estranho festejar uma música como He Won't Hold You, uma das faixas de mais destaque e beleza no disco, Jacob sabe que ela merece estar num conjunto de faixas celebrativas, como Count The People e, até mesmo, sensuais, como Time Alone With You, por que "Djesse Vol. 3" é um disco que mergulha na sinceridade de todos os sentimentos que o músico pode ter, com a intenção de validá-los.



Desde os trechos energéticos e urgentes de In My Bones (Be my rush, be my crush, be my fantasy / Get my blush, feel my touch, baby, you can see), até os quase óbvios de He Won't Hold You (And all across from all around / The people make a people sound), todos eles tem espaço na narrativa de Collier, e servem para mostrar a maneira que ele enxerga as inquietações à sua volta, respeitando todas as suas oscilações e inconclusões, sem censurar, na verdade, quase exaltando a rapidez que os pensamentos podem mudar, fenômeno que aparece tanto em letra, quanto em arranjo e produção. Existem vários momentos que parecem, de início, ser somente experimentos pesados e "amontoados" sonoros, mas são subitamente interrompidos por vozes etéreas e contemplativas. Esses eventos acontecem em diversas canções do disco, mas é em Light it up to Me que o músico basicamente explicita como ele quis realçar as transições abruptas e o caos enquanto uma espécie de caminho para a calmaria.


O disco consolida a aproximação do músico com o pop, fato que ficou claro com a excelente recepção do público ao single "All I Need", com participação de Mahalia e Ty Dolla $ign, mas isso não restringe o disco de momentos ultra-experimentais, como na primeira faixa, "CLARITY", que abre o disco fazendo um resumo de si mesmo, mostrando uma densidade sonora que se dá pela variedade quase infinita de timbres ao longo de todo o disco, e pelo número incontável de notas sendo tocadas num espaço de tempo curtíssimo, dando mais espaço para os beats e as percussões brilharem de uma forma mais especial nesse volume da obra. É, aliás, justamente nessa mistura, que a identidade e mensagem de Jacob aparece com mais força e impacto.



"Djesse Vol. 3" aglutina um experimentalismo denso com o pop e o jazz, resultando num disco que soa mais "estranho" do que os seus volumes anteriores, mas que cativa pela mente brilhante e simpática que Jacob é e transmite em todo o seu trabalho. Considerando tudo que temos até agora, "Djesse" tem mostrado imersões cada vez mais fundas na cabeça e no universo sonoro de Jacob Collier, que vem se provando, com o passar do tempo, um dos melhores músicos da atualidade. É impossível terminar de ouvir qualquer um dos álbuns da trilogia que foram lançados até então e não contemplar o privilégio que é ser contemporâneo de Jacob, e ver o mundo (ou um recorte dele) a partir de uma mente tão singular e poética, que diz tanto ao mesmo tempo, mas, no fim, é completamente compreendido.

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