• Rodrigo Saminêz

Doves volta com peso após 11 anos, mesmo sem muitas surpresas

O novo disco do trio, "The Universal Want" traz arranjos impactantes, porém não muito inovadores - o que não é um problema.


Doves sempre foi aquela banda que esteve pronta para lidar com estádios e grandes públicos (por mais estranha que seja essa analogia em plena pandemia). Seja em "Lost Souls" (2000), ou em "Kingdom of Rust" (2009), o grupo nunca foi tímido, seja nos palcos ou nos arranjos, e agora a estratégia usada foi a mesma. O novo disco "The Universal Want" chegou 11 anos depois de "Kingdom of Rust", mas parece tão próximo de seu anterior, quanto este parece dos outros, e isso não é, nem de longe, um problema.


No novo álbum, Doves veio mais uma vez com sua marca registrada de bases fortes de violão, piano e bateria, misturando o piano-rock dos anos 2000 com porções generosas (porém bem dosadas) de psicodélico e progressivo. A sensação aqui é de reencontrar um velho conhecido, cuja vida não anda lá muito diferente, mas que, mesmo assim, o papo ainda rende bastante. Apesar da falta de novidades (que aparecem, mas de maneira sutil), "The Universal Want" é muito bem sucedido em focar no que a banda mais sabe fazer bem. Até porque, mesmo antes da pausa de 11 anos, o grupo já havia acumulado 10 anos de experiência, logo, aqui, parece que as principais características do grupo foram intencionalmente reforçadas e aguçadas.



O disco se constrói nas mesmas bases de sempre, mas isso não impede o trio britânico de experimentar. Mesmo que não sejam os timbres de mais destaque no álbum, eles roubam a cena em músicas como "Cathedrals of the Mind", "Mother Silverlake", que parece uma grande brincadeira, um grande jam da banda, que foi desaguando aos poucos numa música completa, e na própria faixa título, que explora muito bem os sintetizadores, dando um forte gosto de "quero mais".


Liricamente, o álbum trata de assuntos pessoais e existenciais, como a passagem do tempo e nostalgia. A própria banda já comentou que o tempo é um assunto recorrente nas músicas, e que o disco aborda um espectro temporal que abraça desde os primeiros concertos da banda até o reencontro do grupo, em 2019, ano que fizeram alguns shows para oficializar o seu retorno.



Doves voltou, e isso já é motivo de muita alegria. Até por que, "The Universal Want" não é apenas um disco feito para os fãs antigos, mas sim um trabalho capaz de cativar os ouvintes mais recentes que, talvez, nunca tiveram contato com a banda. Isso provavelmente falharia, se a banda não tivesse tanto cuidado e impacto nos arranjos. É impossível ouvir Doves sem reparar na força que emana do trio, e aqui não foi diferente. Só isso já faz de "The Universal Want" um lançamento que merece atenção e destaque: simplesmente por ser um disco de peso de uma banda que sabe o que faz.

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