• Rodrigo Saminêz

Carne Doce explora as origens de seu som no seu quarto disco, "Interior"

Atualizado: Out 5

Na figura do pequi, o grupo consolida suas origens e exalta os símbolos que representam sua música e sua história.

Foto: Macloys Aquino e Jamie Silveira

Para muitos, "Carne Doce" é uma banda goiana de rock, mesmo que o próprio grupo não se enxergue exatamente dessa forma. O "goiano" sempre esteve atrelada ao grupo, mesmo que o som deles nem sempre casasse com tais referências. Após 6 anos do primeiro e autointitulado disco da banda, chega "Interior", que se conecta ao primeiro na intenção de redefinir a identidade da banda e abraçar todos os elementos que transformam e transformaram o grupo no que ele é hoje.


As referências do disco não poderiam ser mais interessantes. Ao mesmo tempo que a banda traz pro seu rock alternativo elementos da música regional goiana, "Interior" é o disco do grupo que mais apresenta timbres de percussão eletrônica, que se assemelham muito com batidas do lo-fi hiphop, como em "A Partida", sem abrir mão do experimentalismo nas guitarras, e dessa vez, também nos vários sintetizadores, que ganharam espaço tímido em "Tônus" (2018), mas aqui toda a timidez se esvaiu de vez. Com todas essas misturas, Carne Doce criou uma obra que, a partir da multiplicidade, estabelece uma identidade própria e ressignifica e se apropria da definição de "banda goiana de rock" que sempre foi atribuída à eles. É muito fácil se perder nos instrumentais quase progressivos que a banda experimentou no disco, e ser pego de surpresa pela voz de "Salma Jô", vocalista e compositora da banda, que nem sempre conduz a música, deixando essa tarefa para os outros membros da banda em alguns momentos, mas que sem dúvida, se destaca em todas as faixas, não só pelo timbre único, mas pelo conteúdo lírico impecável presente da primeira faixa à última.




Capa do disco "Interior"

O disco também marca um amadurecimento nas letras da vocalista, que misturam poesia com a realidade crua que o Brasil se encontra no momento. Assuntos como cancelamento e linchamento virtual (que a banda sofreu no final do ano passado) são tratados sem frescura e sem censura, e também sem parecer uma resposta urgente à um tweet raivoso, mas como um posicionamento consciente, que veio com o tempo e muita reflexão. Bom exemplo disso é a faixa "Hater", lançada de surpresa na semana de lançamento do álbum, que questiona quem são de fato as vítimas e os culpados dessa relação tóxica imposta nos ambientes virtuais, alternando entre versos como "Que me adora pelo inverso / Me odeia com adoração" e "Quero estar à sua vista / Preciso que você assista / Pra invejar o meu sucesso". No entanto, o álbum encara isso simplesmente como mais um dos temas, e não como um pilar lírico, ou uma muleta, passando por questões mais identitárias e existenciais e políticos, caso da primeira faixa do disco, e, coincidentemente, também primeiro single "Temporal", que explora uma visão passiva e estranhamente pacífica da destruição que assistimos cotidianamente, num jam dançante e melancólico ao mesmo tempo.



Carne Doce mostrou em "Interior" que é possível ressignificar os títulos, os vocativos e as ofensas, sem romantizar esses processos e trazendo a nudez dos processos na intenção de comunicar direta e intimamente com o público as inquietações de uma banda goiana, que, antes de tudo, é uma banda feita de gente, e gente que olha atentamente pra contextos, pra cultura, pras origens, mas, principalmente, pra dentro de si, e em como é a maneira mais honesta de se comunicar com o que está à sua volta.



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